Xenofobia em Portugal, uma breve reflexão
O artigo reflete sobre a xenofobia em Portugal, alertando para casos pontuais sem generalizar hostilidade.
“É tudo a mesma coisa, falamos a mesma língua.” Se você está planejando se mudar para Portugal, provavelmente já ouviu ou pensou isso. A verdade? Essa é uma das maiores armadilhas que podem sabotar sua experiência.
Muitos brasileiros retornam não por falta de dinheiro ou oportunidades, mas por não conseguirem se adaptar. O sentimento de não pertencimento, as pequenas frustrações diárias e a saudade de casa se acumulam, criando uma barreira invisível.
Vivenciei situações que me fizeram perceber que é preciso encarar essa mudança como uma nova realidade cultural , algo que vai muito além das diferenças linguísticas.
Neste artigo, vamos desmistificar essa ideia. Você vai descobrir o que esperar de verdade do choque cultural em Portugal e como se preparar psicologicamente para as diferenças que vão muito além do sotaque. Prepare-se para uma imersão na realidade portuguesa, sem filtros.
Antes de mergulhar nas diferenças, é importante entender o que é o choque cultural. Não é apenas sentir falta de pão de queijo. É um processo psicológico que a maioria dos expatriados enfrenta, e ele geralmente se divide em quatro fases:
Entender essas fases é o primeiro passo para não se desesperar quando a fase da frustração chegar. E ela vai chegar.

Sim, a língua é a mesma, mas a comunicação é completamente diferente. Este é, talvez, o primeiro e mais impactante dos choques.
No Brasil, costumamos “adoçar a pílula”. Damos voltas para dizer “não”, usamos diminutivos e um tom mais suave para evitar parecer grosseiros. Em Portugal, a comunicação é direta e literal. Se você pergunta algo e a resposta é um “não” seco, não é falta de educação; é apenas a resposta à sua pergunta.
Essa objetividade pode ser confundida com grosseria por quem não está acostumado. A dica é não levar para o lado pessoal. O português valoriza a clareza e a honestidade, e a comunicação reflete isso. Um “não” é apenas um “não”, sem segundas intenções.

Prepare-se para se sentir um pouco perdido no supermercado ou ao pedir uma informação. Muitas palavras do cotidiano são completamente diferentes e podem gerar situações engraçadas (ou confusas). Procure saber com amigos as mais usuais ou pesquise na internet, você ainda vai ser divertir com as diferenças.
No Brasil, chamamos quase todo mundo de “você”. Em Portugal, a formalidade é mais presente. O uso de “tu” e “você” varia muito por região, mas como regra geral, “você” é um tratamento mais formal.
Em contextos profissionais, acadêmicos ou ao se dirigir a pessoas mais velhas, é comum usar “o senhor” ou “a senhora”, muitas vezes acompanhado do título profissional, como “Senhor Doutor” ou “Senhora Engenheira”. Usar “você” com um desconhecido ou uma autoridade pode ser visto como desrespeitoso. Na dúvida, comece com o tratamento formal e observe como a pessoa responde.
Entretanto, se você acha que o inverno europeu se resume a usar casacos bonitos na rua, prepare-se para um grande choque térmico, principalmente dentro de casa.
Na verdade, este é um dos pontos que mais pegam os brasileiros de surpresa. Isso ocorre porque muitas construções em Portugal, nomeadamente as mais antigas, não possuem um bom isolamento térmico nem sistema de aquecimento central. Consequentemente no inverno, é comum fazer mais frio dentro de casa do que na rua.
Diante desse cenário, você vai se ver usando casacos, gorros e meias grossas para assistir TV no sofá. Nesse contexto, o aquecedor elétrico portátil se tornará seu melhor amigo, mas por outro lado, um vilão na conta de luz, visto que energia é cara.
Com o frio e a chuva do inverno, vem a umidade. E com a umidade, vem o mofo (chamado de “bolor” aqui). Ele aparece nas paredes, nos cantos dos armários e até nas roupas. A dica de ouro que todo imigrante aprende na marra é: compre um desumidificador. Esse aparelho será essencial para manter sua casa mais seca, saudável e livre do cheiro de mofo.
A solução para lidar com o clima é adotar a “técnica da cebola”: vestir-se em camadas. Você sai de casa com uma blusa térmica, uma blusa de lã, um casaco pesado e um cachecol. Ao entrar em um shopping ou café com aquecimento, você tira as camadas externas para não passar calor. É um hábito que se adquire rapidamente e faz toda a diferença.
A vida em Portugal tem um ritmo diferente, mais calmo em muitos aspectos, mas com regras sociais bem definidas que podem contrastar com o jeitinho brasileiro.
O café em Portugal é uma instituição. O café depois do almoço não é apenas uma bebida, é um ritual social, uma pausa sagrada no dia. É no café que se encontram amigos, se fecham negócios e se coloca a conversa em dia. Esses pequenos intervalos são levados a sério e fazem parte do ritmo de trabalho e da vida social.
Enquanto no Brasil um atraso de 15 minutos é muitas vezes tolerado, em Portugal a pontualidade é valorizada, principalmente em ambientes profissionais e em compromissos formais. Chegar na hora marcada é um sinal de respeito. Atrasos constantes podem prejudicar sua imagem e suas relações.
Este é um dos choques culturais mais positivos. Poder andar na rua à noite mexendo no telemóvel sem medo. Sentar-se em um café e deixar a bolsa na cadeira ao lado. Ver crianças brincando sozinhas no parque. No início, a sensação de “baixar a guarda” é estranha, quase desconfortável, mas logo se transforma em um imenso sentimento de liberdade e qualidade de vida.
O ambiente de trabalho em Portugal tende a ser mais formal e hierárquico do que no Brasil. A comunicação com superiores costuma ser mais formal, e a estrutura da empresa, mais rígida. É importante observar e entender essa dinâmica para se adaptar bem. Além disso, é crucial alinhar as expectativas: os salários podem parecer baixos quando convertidos para o real, mas o que importa é o poder de compra e o custo de vida local. Pesquise muito sobre sua área para evitar frustrações financeiras.

A adaptação é um processo, mas algumas atitudes podem torná-lo mais suave e rápido.

Em suma, morar em Portugal é uma experiência incrível, contudo, é fundamental chegar com a mente aberta. Embora, o país é acolhedor, seguro e cheio de belezas, vale lembrar que ele é diferente do Brasil. Mas está tudo bem. Afinal, o choque cultural em Portugal não é um sinal de que sua decisão foi errada; pelo contrário, é a prova de que você saiu da sua zona de conforto.
Encare cada desafio como uma oportunidade de aprendizado. O choque cultural é, no fundo, o preço que se paga por viver uma experiência transformadora que irá ampliar seus horizontes para sempre.